Sábado, Dezembro 20th, 2008
VERSOS LIQUIDATÁRIOS
J. Diniz de Moraes
Desejei-a destemperadamente um dia.
Infrene corria a seiva passional e inaudita,
E insone permanecia longas horas, à noite,
Sempre à espera de que na aurora, meio tonta,
Assomasse ao estrado da álgida alcova,
Inda que sob o jugo do látego e do açoite,
Balbuciando a palavra mágica e já pronta.
Desejei-a desenfreadamente um tempo.
Inerme o moço guardava-se como jóia rara,
E docilmente embalava as horas eternas do dia,
Sempre com a mesma esperança vã dos incautos
De que antes do fim e da véspera comunal,
Com as trombetas voltadas para os parvos arautos,
Aflorasse ígneo o senso contido no paço vocal.
O modo especial de afeição que se quis mais
Largo do que podia supor o engenho próprio
(Era tempo de reflexão e cautela, deveras)
E que se acreditou resistente e imorredouro,
Era presunção estéril de um ser frágil e sandeu.
E todo o amor que se esperava daquele ouro
Não era senão só o que muito queria o meu.
Hibernam-se as paixões e as pretensões
Num acordo tácito pelo silêncio mútuo,
Que não se podia romper sem motim.
E amaram-se sem correspondência alguma,
E corresponderam-se de um modo banal.
Então, amaram-se no silêncio impávido duma
Canção que exaure toda a cobiça nupcial.
Não propalei minha afeição: exigia-se silêncio.
Nenhum talismã socorreu-me a tempo e modo
De evitar que se quebrasse o incomum cristal.
E se passaram as pretensões líricas e loucas,
Ficaram as rimas cúmplices de uma mudez
Congênita de quem teve paixões poucas
E sente, inda que não demonstre com altivez.
E, na execução forçada deste pacto ímpio e vil,
Então, deixai, na estante assoberbada de nomes,
Em relevo insigne das magníficas pinturas,
Gravado em amálgama dura de prata e grafite,
Mais um, entre tantos que a desventura grifou,
Nestes últimos versos, como uma amiga artrite,
O nome dela como quem um dia já me amou.
Sábado, Dezembro 20th, 2008
VEREDICTUM
J. Diniz de Moraes
Esperou-se ansiosamente o grande dia.
O dia de dizer descuidadamente tudo
A todos, e de deixar logo de ser mudo.
Esperou-se o dia da morte da solidão,
Dos minutos eternos e indolentes,
Dos momentos e azos de acerba angústia,
Num desvelo incomum de fina indústria
De um olhar que descerra toda a sofreguidão.
Aguardou-se desenfreadamente o fausto dia.
Recolheram-se do campo o lenho e a flora linda,
Recolheu-se ao campo tudo de ti e de mim que inda
Não expirava ou denunciava o louco desejo.
Deitaram-se ao largo os contritos e doridos brados;
Poliram diligentemente os altaneiros risos;
Urgia criar, sem demora, mundos e paraísos
Na espera do tudo-certo e de um longo beijo.
Impacientemente, maquinava-se o átimo
De vê-la irromper num estrado de cela,
Insinuante, tenra, deslumbrante e bela:
“Aqui estou e vim buscar-te, louco”.
Pensou-se até na trança do fino cabelo;
No champanha gélido e aberto ao canto;
No olhar incrédulo e de grande espanto
De quem já se sentia tíbio e pouco.
Chegou-se o dia criador de esperanças.
À porta, assomou um espectro de humano,
Entremeado do cômodo fantasma do dano,
Fixo, e sequer refletia a luz incandescente.
Sem sombra, sem som nem ruídos, incompto;
Têmpora e cabelos soltos aos fortes ventos;
Mãos ressequidas e já sem movimentos;
Prenunciava-se ilação de sentença inclemente.
Acudiu, dum flanco, o arauto de todos os anjos,
Numa impavidez digna de olímpica divindade;
Mirando o pranto raso e úmido da soledade,
Deixou sangrar, sem piedade, um ecoante não.
E o espectro, junto ao lívido e impaciente carrasco,
Dizia como refrão: “se a sentença se anuncia bruta”,
Vede, amor, “mais que depressa a mão cega executa”
Pois senão o maldito coração revê e perdoa, com razão.
Sábado, Dezembro 20th, 2008
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Sábado, Dezembro 20th, 2008
Cheguei hoje, cansado, fatigado, preocupado com o novo mundo, com o novo século, o novo ano, o próximo dia, mas cheguei. Amanhã terei outras preocupações, mas fiquemos apenas com as de hoje. Amanhã teremos todo o dia para nos ocupar com as novas preocupações. Se vivermos bem o dia de hoje, certamente, o dia de amanhã será fácil.
Um dia de cada vez; um dia por dia, intenso, como se fosse o último; mas sempre certo como se fosse eterno. Seguro, como se fosse o primeiro, aberto, como se fosse vários; mas sempre novo, como se fosse único.
Diniz de Moraes
Natal, 29 de novembro de 2008.